sexta-feira, 13 de março de 2009

No outro dia em que estou

Depois de sair andando, com o espírito pesado demais para qualquer correria, decidi parar em frente ao mar. Desci a ladeira de asfalto quente, e ao pé dela me encaminhei para mais perto do horizonte. Tudo o que eu precisava naquele momento era de mansidão. Respirar aquela brisa me trazia a tranquilidade de que eu precisava. Olhei bem fundo daquela água, e deixei que a minha chuva caísse. Chorei. Chorei como precisava, até sentir que a angústia que rasgava meu peito estava indo embora. Quis não ver nada e ter que pensar em coisa nenhuma. Queria aquele lugar só pra mim e aquele momento só meu como quem quer a melhor das escolhas. Não havia como eu dizer alguma coisa. Eu não tinha como saber o que estava por fora, ainda que eu quisesse. E na verdade eu não queria. Eu buscava o instante vazio em que a única possibilidade de existência fosse o pensamento perdido. Quero minha segunda vida, pensava eu perdida e inofensivamente. Eu queria que fosse possível: deveríamos ter duas vidas, uma para ser ensaiada e outra para ser levada a sério. Ainda não aprendi o preço da seriedade. Quero minha outra vida. Até que meu olhar macio voltou da ausência em que insistia permanecer. A vontade é de dormir e só acordar quando não houver mais lembrança. Saí dali, atravessei a rua, estava indo para casa. Sem querer memória nem saudade, meu coração ia molemente dentro do táxi. 

terça-feira, 10 de março de 2009

No dia em que estou

Olhar pr'aquele céu de azul animoso e fulgor inclemente, com a luz incidindo de forma fatal sobre a pele e os poros, fez invadir uma inquieta vontade de findar de uma só vez aquele calor. Suor e sentidos e ternura se misturam com a água geladinha daquele horizonte que ali, exatamente ali, é só meu: o desejo é de trocar qualquer coisa pra que a eternidade chegue e ali mesmo fique, e a vida seja somente boiar com vento e leveza cobrindo o meu corpo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

SOBREVIVER

Sobre viver:
o que eu faço nesse mundo
tem passo fundo
tem passo passado e
em cada passo descubro
que o sonho devora 
os sapatos, os pés, a cama, o tempo
Atento, eu vejo
estes inquietos
ventos andarilhos
suspensos em vida,
em trilha e tragédia.
Atravessa, em diagonal, 
a página ainda em branco
uma formiguinha
mostrando como
tudo pode
surgir em atravancos — e
nos fios telegráficos
pousaram uma, duas, três, quatro
andorinhas
anunciando
que o fim da tarde,
o fim do cigarro
tem a tristeza de um
fim-de-linha.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

No one's better sake...

Não quero mais me esconder por detrás das minhas palavras incertas. Elas sempre estiveram à frente de tudo meu, das minhas mãos, olhos, pele, boca. Revestindo tudo aquilo que sempre tive vontade de deixar entregue ao mundo pra só mais tarde ver o que me compensa. Esses meus segredos e só meus e não há mãos nesse mundo que me possam pegar aqui dentro, e se fosse pra escolher, eu não escolheria desse jeito. Se fosse pra escolher, eu quereria mais coragem. Coragem pra mim é o que mais me falta, ainda que lá no fundo do mundo, de mim sempre exista um impulso para perseguir minhas vontades. Eu queria coragem pra que o esforço não me fosse dos maiores. É que às vezes dói, e dói muito. Às vezes dói perseguir o que me falta - e não o que me sobra - por demora dos meus reconhecimentos. Chega a ter horas que me custa mais do que eu já tomei da vida. Não quero mais me esconder por medo de rasgar o coração. Agora o que eu quero é só um convite.


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Barros, Manoel de




Diz por todo o meu silêncio.
É só clicar em cima.

domingo, 13 de julho de 2008

Meu alheio declarado

Nunca me ocorrera como é imaginar a ausência. Eu sempre estive alta demais para que meus passos atingissem o chão. Confesso que sempre foi uma questão de escolha: procuro escolher como prefiro pisar. Acho que o 'como' é mais apropriado do que o 'onde'.
Talvez essas minhas escolhas não sejam das mais certas. Mas eu já aprendi que aquilo que não é certo é também composto de verdade, e a verdade está naquilo que não nos pertence. Embora me sejam fragmentos-de-vida, o que não me pertence é o que eu julgo ser meu a qualquer custo. 
Já me peguei pensando sobre a minha vida realmente me pertencer. E agora acho que o ritual mais aceitável para as minhas indagações é que a minha vida se faz existir a partir dos outros - nos meus de perto, de longe e também através daqueles que não são meus, e principalmente estes, os meus ausentes. Chego a concluir que minha vida não seja de fato minha, mas doada a mim. Doada a mim pelos meus, pelos dos outros e por mim mesma.
Sentir o peso da ausência ou imaginá-la em mim é estranhamente espantoso. Ela é grande demais para o meu tamanho e receio não suportá-la, e talvez por isso eu arraste meu coração pelo lado oposto. 
A incerteza de uma falta naquilo que desconfio nem me pertencer me causa um intenso desacordo. Eu queria ser nas palavras assim como sou nos sentidos. Um muito atrapalhada, mas talvez conseguisse dizer o incompreensível nunca dito. Preciso dizer porque sei que não cabe somente aqui comigo, ou eu quero acreditar que não cabe. Quero dividir com quem eu puder como é ver a ausência que me empurra para pegar o que eu nem sei se será meu e colocar dentro do corpo.

domingo, 6 de julho de 2008

Onde a estrela tem hora, para Lispector

"Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim, que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.
E não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Eu sei de muita coisa que não vi. E vocês também, eu sei. Não se pode dar uma prova de existência daquilo que é mais verdadeiro; o único jeito é acreditar e acreditar chorando. Este show acontece num estado de emergência e calamidade pública. É um show inacabado, porque lhe falta resposta. Resposta essa que espero que alguém no mundo me dê. É um show em tecnicolor, pra eu ter algum luxo por Deus, porque eu preciso. Amém, para todos nós."