domingo, 17 de maio de 2009

we are accidents
waiting
waiting to happen

domingo, 10 de maio de 2009

Recorte

Quando estivera cama à dentro, a delongar miúdas recordações, é que viu quão tilintante eram os inventados. Ela devia segurar-se mais no chão, ter por onde passar, e ver mais à sua altura, não tão longe não tão alto. Lembrou-se de como arrependimento era estado recorrente. Mais ainda sobre os não-feitos. E as mãos sempre ali postas, em conducentes consolos apertinhos prontas a pôr termo aos próprios pesares. Por que se ocupava tanto com não-acontecimentos? Por quê? Acabava era perdendo o que já lhe acontecera, isso sim. Ficava só com as inexistências.
Custoso era fazer-se valer de que nada daquilo ali faria com que

Tudo bem. Yo no creo en tiempo, pero que los hay,
los hay.

sábado, 2 de maio de 2009

Leminski, Paulo

haja hoje para tanto hontem

domingo, 26 de abril de 2009

Barros, Manoel de

Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais
ou no Viterbo —
A fim de consertar a minha ignorãça,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
— Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
— Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
— Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
— Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc.
Etc.
Etc.
Maior que o infinito é a encomenda.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Muitos não sabem qual o valor de ser árvore. É a parte mais bonita da vida. Dá pra sentir o mundo de maneira livre, já que a minha quietude compõe o silêncio daquilo que eu consigo ver. Ser árvore é também apreciar os desperdícios do mundo sentindo o vento que poucos alcançam. É a invenção de cobrir o espaço vasto tendo apenas um tronco, e ainda assim criar um retalho de diferentes vidas. É uma das melhores partes da plenitude.

domingo, 12 de abril de 2009

dúvida instante

Será que tem jeito?
Um dia
ajeito.

sexta-feira, 13 de março de 2009

No outro dia em que estou

Depois de sair andando, com o espírito pesado demais para qualquer correria, decidi parar em frente ao mar. Desci a ladeira de asfalto quente, e ao pé dela me encaminhei para mais perto do horizonte. Tudo o que eu precisava naquele momento era de mansidão. Respirar aquela brisa me trazia a tranquilidade de que eu precisava. Olhei bem fundo daquela água, e deixei que a minha chuva caísse. Chorei. Chorei como precisava, até sentir que a angústia que rasgava meu peito estava indo embora. Quis não ver nada e ter que pensar em coisa nenhuma. Queria aquele lugar só pra mim e aquele momento só meu como quem quer a melhor das escolhas. Não havia como eu dizer alguma coisa. Eu não tinha como saber o que estava por fora, ainda que eu quisesse. E na verdade eu não queria. Eu buscava o instante vazio em que a única possibilidade de existência fosse o pensamento perdido. Quero minha segunda vida, pensava eu perdida e inofensivamente. Eu queria que fosse possível: deveríamos ter duas vidas, uma para ser ensaiada e outra para ser levada a sério. Ainda não aprendi o preço da seriedade. Quero minha outra vida. Até que meu olhar macio voltou da ausência em que insistia permanecer. A vontade é de dormir e só acordar quando não houver mais lembrança. Saí dali, atravessei a rua, estava indo para casa. Sem querer memória nem saudade, meu coração ia molemente dentro do táxi.