domingo, 13 de julho de 2008

Meu alheio declarado

Nunca me ocorrera como é imaginar a ausência. Eu sempre estive alta demais para que meus passos atingissem o chão. Confesso que sempre foi uma questão de escolha: procuro escolher como prefiro pisar. Acho que o 'como' é mais apropriado do que o 'onde'.
Talvez essas minhas escolhas não sejam das mais certas. Mas eu já aprendi que aquilo que não é certo é também composto de verdade, e a verdade está naquilo que não nos pertence. Embora me sejam fragmentos-de-vida, o que não me pertence é o que eu julgo ser meu a qualquer custo. 
Já me peguei pensando sobre a minha vida realmente me pertencer. E agora acho que o ritual mais aceitável para as minhas indagações é que a minha vida se faz existir a partir dos outros - nos meus de perto, de longe e também através daqueles que não são meus, e principalmente estes, os meus ausentes. Chego a concluir que minha vida não seja de fato minha, mas doada a mim. Doada a mim pelos meus, pelos dos outros e por mim mesma.
Sentir o peso da ausência ou imaginá-la em mim é estranhamente espantoso. Ela é grande demais para o meu tamanho e receio não suportá-la, e talvez por isso eu arraste meu coração pelo lado oposto. 
A incerteza de uma falta naquilo que desconfio nem me pertencer me causa um intenso desacordo. Eu queria ser nas palavras assim como sou nos sentidos. Um muito atrapalhada, mas talvez conseguisse dizer o incompreensível nunca dito. Preciso dizer porque sei que não cabe somente aqui comigo, ou eu quero acreditar que não cabe. Quero dividir com quem eu puder como é ver a ausência que me empurra para pegar o que eu nem sei se será meu e colocar dentro do corpo.

domingo, 6 de julho de 2008

Onde a estrela tem hora, para Lispector

"Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim, que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.
E não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Eu sei de muita coisa que não vi. E vocês também, eu sei. Não se pode dar uma prova de existência daquilo que é mais verdadeiro; o único jeito é acreditar e acreditar chorando. Este show acontece num estado de emergência e calamidade pública. É um show inacabado, porque lhe falta resposta. Resposta essa que espero que alguém no mundo me dê. É um show em tecnicolor, pra eu ter algum luxo por Deus, porque eu preciso. Amém, para todos nós."

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Do tempo, a obra-prima

Era dia de vida para Temporina, do jeito que ela sempre apreciou. Como daqueles acontecimentos que se realizam sem o encalço premeditado, haveria de ser com o inesperado: atraiu-se em prender-se a feitios surpreendentes.

Viera de encontro Mister Rio, assim sem explicação interessante, com sua descontinuidade indevassável. E quanto perigo. Deus sabe quanto perigo existe nas confluências humanas. Por isso mesmo as faz existir provocantemente perigosas.

Para Temporina, uma pescadora de sonhos, o que lhe chegava por meios periclitantes fazia-na frágil. Uma fragilidade leve que conduzia Temporina de uma maneira que o tempo não estima.

Mister Rio fez-se presente como um pássaro de vôos alçantes, acima do teto. Difícil para Temporina subir em escadas de vento, a fim de achar-lhe os olhos para lhe segredar detalhes. Mister Rio, com todo cacife que seu posto lhe atribui, também não soube estimar maneiras para a compreensão de achar Temporina num dia de vida. Mister Rio, como sua própria feição sugere, é conferido de mistérios sem tamanho.

Quanto mistério carrega este senhor-oculto? Que mostrou sem saber, para que Temporina visse, que é como ter um pássaro pousado no dedo: tanta tensão causa um batimento descompassado. Deixando: no pé, nuvens. Nas mãos, cordas. No dentro, tempo.



Para me remediar: eu sei que um dia o honroso Mia Couto há-de me perdoar por roubar-lhe o incrível "Temporina".

domingo, 16 de março de 2008

Ai. Como algumas vezes eu queria mostrar um subjetivo meu bem desforrado. Eu juro que tento - e não minto. Estou desdobrando o meu centro só para dizer que precipícios existem, de fato. Eu constatei, e continuo.
Mas, sabe? É um alcance a dois: sei e não sei. A parte que me é conhecida, eu gosto. A tão desapercebida - ou ainda não reconhecida, digo - eu gosto mais ainda.
Não vim pedir abrigo, juro de novo. Com os pés juntos e coração aberto.
É que sou toda-de-vários-viés. Um labirinto. Sim, sim!
Labirinto.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008


O valor dissoluto das frágeis vertigens de nossa vivência é algo tão forte. Enquanto estamos categoricamente nos desenvolvendo, comete-se o singelo engodo de que a nossa flexibilidade senso-moral tratar-se-á como derrotada, já que o encontro de um ponto fixo foi possível em algum instante. Um ponto fixo possível? Mentira. É com certeza mentira. 
Quem não sucumbe à pluralidade é fatalmente punido pela vida, creio eu. O desfazer das resoluções é tão fragilmente forte que torna-se como que inevitável. Ainda mais tratando-se do desconhecido. 
O desconhecido tem o suave arrojo de despertar interesse. Vejo-me tão decaída e fraca diante dele que tenho cara e coragem pra confessar que meus receios são suplantados pela provocação. O meu temor hesitante é de uma covardia tão profunda que não sei até onde o buraco chega se for cavado; então o atrativo me ganha, mesmo eu sabendo quanto esmero eu tenho que dar para que minha inquietude desprenda-se com melhor empenho. E eu mergulho em grandes saltos - até naqueles nunca antes tangenciados pela proposta do talvez. 
Não há como ter ponto fixo já que o mundo todo vivo estremece qualquer perna, até aquela mais disposta a não dobrar. O mundo todo vivo ecoa por entre todas as brechas e o comover-se deixa de ser uma escolha para vestir-se de atrevimento. Eu não quero deixar escapar o meu atrevimento. Ele me conduz quase que integralmente ao sobressalto, e o alvoroço faz-me envolver no vibrar latente concentrado em mim, deixando pra talvez quem sabe nunca-mais o depois. O depois? Um pouco distante, e eu simpatizo com as proximidades. Aproximar-me quer dizer é-pra-já, e não é-pra-adiante.
Eu deixo que esta alavanca reporte-me ao desconhecer daquilo que não é previsto, porque me interessa mais ser maleável e curvar-me ao meu gosto a me firmar numa estabilidade mentirosa. Ou não tão verdadeira assim...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Custa nada




Apegada ao desprender
aprendi que
a pegada
aponta pra frente
a pegada
que leva e se sente

[o desapego não mente

tente?]

Eu tento
eu tento
o desprendimento
apegada a

...nada

É tudo momento
eu tento, tomo tento
me oriento
apegada ao desapego
é aprender

que tudo é momento
dentro
aponta pro centro,
eu tento

...tudo

A pegada
voa
voa
tem hálito de fruta
e nome
de pessoa
me pega apegada, a pegada
então,
eu tento
no momento
desprender.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Só vim aqui porque se não escrevo, eu seco. 
Eu já me prometi, me prometi bem compromissadamente. Escrever o que são letras, aqui dentro, em forma de desvelo. É para me rememoriar. Cravar cintilante o permanecer que vale a pena.
Quão afável eu desejo, e não vejo. Mas desejo.
Eu sei que é certo e certeiro o desvalida, mas já é promessa prometida. Prometida!